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Humor, crítica, crônica, comédia e sátira sobre o Rio de Janeiro, o Brasil e o Mundo |  Defendendo o humor inteligente do Capitalismo e do Aquecimento Global, antes que se torne brinde de pasta de dentes

quinta-feira, 4 de maio de 2006



Hay que endurecer

Rio de Janeiro, Bar Luis, noite de quarta.

- Garçon, trás um conhaque.

Pego a caneta e o caderno e começo a fazer as anotações. Acendo o charuto, recosto na cadeira e visualizo a outra meia dúzia de clientes do bar.

Foi uma semana agitada, e eu não tive tempo de escrever. Garotinho fazendo greve de fome, a Bolívia tomando a Petrobrás, o caseiro pedindo uma aposentadoria milionária de indenização, deputados gastando Iraques de petróleo em cotas de gasolina, as obras do Pan que vão ficar prontas na semana de abertura do evento, o país adquirindo a auto-insuficiência e, finalmente, o Chico confessando que fuma e brocha.

Infelizmente todas as boas piadas já foram usadas. Só me resta lamentar os ocorridos. E talvez um plágio ou outro.

- Garçon, me vê aquela porção de milanesa e salada de batata.

Garotinho, esse grande gênio da política, religião e rádio-difusão, o grande mentor da grande Rosinha, essa futura Senadora, futuros santos-beatos já em processo de canonização. O aprendiz que roubou o apelido do mestre. Esse mesmo. Face à complexidade do mundo e a pouca fé da Humanidade, esse grande homem público, lembrando ídolos como Gandhi, resolveu de forma nobre entrar em greve de fome e doar as suas 3 refeições diárias aos famintos, enquanto não acabarem as guerras no mundo, a poluição do meio-ambiente e enquanto a TV brasileira não reprisar a série Chips.

Tão bombástico quanto o regime do Garotinho ou o cancelamento do show do Zeca na festa de comemoração da auto-suficiência em petróleo do país, foi a ocupação, uma semana depois, das instalações da Petrobrás pelas tropas de elite do presidente-índio-cocaleiro Erva Morales. Erva tomou a decisão após reunir-se com seu gabinete e tomar um cházinho para abrir as idéias. Em seguida, acionou 100 soldados (metade do contigente do país), munidos de tacapes, pedras e aquelas flautas de bambú -- armas típicas dos índios bolivianos. Cercaram as instalações brasileiras e ficaram tocando na porta até que alguém comprasse um CD -- ou cedesse o controle dos prédios.

Desde a ocupação vários especialistas surgiram explicando quando e como nosso país errou ao importar a matéria-prima do nosso vizinho gasoso. "Foi mexer com gás deu nisso". Outros afirmam que foi-se a época em que era fácil passar a perna em índio. "Não existem mais bobos no futebol, e nem no setor energético", afirma um técnico da área.

Mas os problemas não acabam por aí. O determinado Erva pretende, a médio prazo, acabar com todas as reservas de gás do país (acendendo um fósforo nas minas) e plantar coca em tudo o que sobrar. Os gasodutos seriam aproveitados e convertidos em cocadutos, distribuindo de forma rápida e barata a especiaria boliviana.

Diplomatas brasileiros trabalham num acordo que possa garantir resultados para ambos os lados. Alguns estudam a possibilidade de devolver o Acre à Bolívia, em troca das minas de gás. Outros países estão oferencedo acesso ao Pacífico, ao Atlântico e até ao Índico aos bolivianos. Movimento no Orkut exige a anexação do país vizinho, antes que a coisa piore. Pela política externa do nosso governo até agora, porém, o mais provável é exatamente o contrário...

Portanto vá caprichando no seu espanhol, compre o CD alí na São José, e acostume-se ao prazer de um bom chá direto dos Andes.

- Garçon, o café e a conta.


Polêmica

Trecho divulgado do Evangelho Segundo Judas:

"Vesti uma roupa bem quente e, debaixo do Sol escaldante, repeti tudo que ouvistes à exaustão. Espalhai-vos e gritai aos brados, em toda praça ou esquina, a assim chamada palavra do senhor. Gesticulai em excesso, enchei o saco dos transeuntes, xingai as outras religiões e mencionai o nome dos Santos e do Capeta em alto e bom som."


Cena carioca

No matagal que ocupa o espaço onde será o Velódromo do Pan, várias autoridades da Cidade, Estado, União e inclusive internacionais, acompanhadas de perto pela Imprensa, todos munidos de capacete, declararam-se satisfeitas com o andamento das obras (!).

A pergunta que não quer calar é: pra que servia o capacete? Não havia nenhuma estrutura de pé no local!

quinta-feira, 13 de abril de 2006



Você chama isso de m.?!?!

Um amigo me pára na hora do almoço e pergunta: "Você sabe o que é m.? M. é quando o sistema dá pau por causa de alguém (viado e fdp) e você (corno) é o cara que tem que descobrir e contar pro cliente que nem sequer o backup pode ser restaurado".

Após o almoço, de volta ao escritório, ainda ria da cara dele quando os auditores chegaram e fizeram um sorteio pra ver quem seria o Cristo daquela semana: eu. "Você chama isso de m.?" - gritei pro meu amigo, que se dobrava de rir com o agora pequeno problema de backup.

Todo mundo já recebeu aquele e-mail com as frases que tipicamente antecedem à m., tipo, "Isso nunca deu errado antes", "Confie em mim", "Meu marido só volta à noite", "Faz se tú é homem", ou "Vou votar nesse porque ele rouba mas faz". Mas nunca ninguém fez um estudo aprofundado.

Resolvi me aprofundar no tema. Como a definição de m. tem evoluído ao longo da história? Uma m. nos anos 70 era pior ou melhor do que uma m. do século 21? Como será a m. do futuro? Tudo isso essa quinta no M. Repórter - reprise sábado no M. News e domingo no M. Espetacular.

Primeiro vamos a um pequeno glossário para colocarmos todos na mesma página:

M. - acontecimento que afeta uma ou mais pessoas de forma negativa.
Chefe - nunca é responsável pela m., embora cause várias por dia
Viado ou fdp - cidadão causador da m.
Corno - consertador de m. ou afetado por ela.
Hiena - aquele que gosta de m. e lucra com ela. Vide consultor, auditor, advogado.
Meia-vida - o tempo que a m. leva para perder metade do seu efeito.

A primeira m. da história da humanidade foi, sem dúvida, Adão comer a maçã da árvore do pecado. Sim, Adão, porque Eva com certeza só levou a culpa por que chegou por último no Paraíso.

Mas ainda antes disso algum dinossauro fez m. e acabou com toda uma era. Talvez ele também tenha comido algo que não devia.

Ao longo dos tempos, as m. vêm ganhando maiores proporções. Você pode se perguntar o que seria maior que destruir quase toda a vida na Terra, porém se os dinossauros não podiam raciocinar, também não podiam apreciar a m. do mundo acabando ao se redor.

A m. seguinte foi o rapto de Helena de Tróia, digo, para Tróia. Essa m. não só destruiu a cidade, como foi responsável por várias m. na seqüência, como a fundação de Roma, o filme horroroso estrelado pelo traseiro de Brad Pitt.

Roma, responsável por várias m., iria inventar a burocracia e o serviço civil, iria destruir a biblioteca de Alexandria, antes de ruir pelo peso de sua corrupção e eleger o Berluscollini.
Várias m. na idade média: Cruzadas, invenção do divórcio (e por conseqüência, da ex-mulher), a Inquisição e a caça às bruxas.

Na Idade Moderna, um assassinato de um príncipe qualquer causou uma grande m., digo, guerra, que causou outra, e que não melhorou em nada a m. fria. O homem vai para o Espaço, pisa na Lua e cria assim a m. espacial. O mundo se globaliza e as m. se intensificam. O Terrorismo e o Anti-terrorismo surgem e desde então é m. atrás de m.

No Brasil, a m. evolui ao longo do tempo em ordem exponencial:

M. na década de 70 - a Ditadura e a Censura, que proibiam o uso da expressão "m."
M. na década de 80 - o Brasil perder a Copa de 82
M. na década de 90 - Collor e o confisco e da poupança; FHC e a alta dos juros
M. no ano 2000 - As contas erradas das empresas de telefonia celular; Lula e o Mensalão; Seu filho menor de idade usar seu micro para crimes digitais;

Graças ao processo privatizatório das telecomunicações, grandes empresas surgem: Telemerda, Merdofônica, Brasil Merdacom. Vários novos serviços de m. surgem no país. TV a cabo, celular, conexão banda larga e tantos outros serviços caros e que raramente funcionam. Nos bastidores, vários "funcionários" sem vínculo empregatício e recém saídos da faculdade processam as faturas e as cobranças destas empresas, de domingo a domingo, horas e horas a fio, num processo que mais faz lembrar a indústria de tear inglesa ou as usinas de carvão russas do início do século (passado).

O Marketing também evolui, de foco no produto para foco no cliente e, mais recentemente, de foco no cliente para foco na m. O Call Center evolui e você agora recebe ligações no domingo à noite oferecendo outro cartão de crédito de m.

Nos escritórios as m. estão de vento em popa. Chefes de m., funcionários de m., produtos de m., consultores de m., todos juntos oferecendo a seus clientes o supra-sumo e o estado da arte da m. Estagiário então é igual ao Edmundo: tá esperando pra fazer m! Na área de informática, m. é uma filosofia de vida, onde um software de m. vale milhões, muda uma empresa inteira, mesmo sendo uma m. e sem nunca cumprir o que promete.

Mas a vida segue, o ano de 2006 nem chegou à metade, e só nos resta torcer por m. melhores e observar de perto a programação de m. das TVs abertas. Ah, e claro, fazer nossas apostas no Romário ou no Pelé para ver quem chega primeiro ao milésimo filho ou à milésima m...


O Evangelho segundo Suzzane

Não só a mídia, a sociedade, os formadores de opinião, os profissionais liberais, os políticos e os criminosos, mas também o povo brasileiro ficou impressionado com a entrevista do Mário, advogado de Suzzane Rich, interpretada pela própria, ao Fantáástico. Apesar do choro sem lágrimas e o balbuciar repetitivo e inaudível, a patricida garantiu sua vaga na novela juvenil Malhação 2007 - que mudará seu cenário para o presídio feminino do Carandirú.

O advogado porém, ficou indignado com a falta de respeito à sua privacidade com sua cliente gostosinha. "Chora, neném, chora! Isso berra! Faz careta agora!" - Frase dita pelo advogado ao pé do ouvido de sua cliente, porém cortada da edição da entrevista. Que injustiça!

Mário teria arranjado a entrevista para mostrar o dia-a-dia de Suzzane, seus hábitos, seus livros e discos, os passarinhos que cria, e outras atividades que pratica enquanto não está fazendo sexo grupal com bandidos ou matando os pais.

A Globo disse que ao perceber a farsa não lhe restou alternativa a não ser denunciá-la. Foi uma questão de ética jornalística. Resta então saber qual é a alternativa ética para até hoje não se mostrar os bastidores da ligação entre o futebol carioca e o tráfico...

quinta-feira, 16 de março de 2006



E a gripe veio do espaço

Zomir era um funcionário exemplar do Laboratório de Pesquisa e Exploração Exterior, lotado no setor de Vida Primata e Inteligente. Chegava pontualmente na Segunda, saía pontualmente na Sétima e acessava os emails na Oitava, Sábado e até Domingo às vezes. Sua especialidade era Nano-Computação Viral, o que pagava muito bem especialmente para quem topava trabalhar em campo.

A vida de pesquisador embarcado não era das mais fáceis. Comer cereal colorido em caixinha, tomar um descafé sintético horroroso e beber água re-oxigenizada não eram exatamente refeições ideais pra alguém com tamanho apetite e apreciação culinária.

Ele tentava esquecer isso ouvindo seu iPod enquanto se concentrava no seu projeto. Era, ou melhor, seria tarde da noite se estivessem em casa, quando Thuir6 se aproximou puxando assunto.

- Estamos passando por Centauri Distante nesse momento. Espero que você não tenha comido muito no jantar... - disse, reticente.
- Por quê? A plataforma vai sacudir?
- Vento solar de Nêmesis. Na posição que estamos ele é terrível. Tempestades em toda seção esférica. O estagiário no ano passado vomitou o cubículo todo. Ninguém aguentou o cheiro e a gente teve que abrir as janelas.
- Só agradeço por não estarmos indo pro Sistema Solar, dizem que aquela porcaria do Helius causa câncer... Comentou Xiaut, que chegara momento antes.
- Ah, mas têm suas vantagens... céu azul, praia, mulheres bronzeadas...
- Você já esteve lá ?!?! - Zomir arregalou os olhos.
- Sim, pô, foi naquela auditoria do YbRT22, aqueles merdas do governo encheram nosso saco as 89 horas do dia e... - Nesse momento a plataforma começa a balançar - Ih, pronto, começou. Vou aproveitar pra deitar, não consigo falar com esse sacolejo todo. Me dá dor de ouvido.
- É, acho que vou fazer o mesmo. Até mais - despediu-se Zomir.

Mas ele não planejava dormir. Tinha muito interesse pela Via Láctea, especialmente o Sistema Solar. Durante toda a sua infância ele ouviu as histórias da guerra entre Helius e Nêmesis e cresceu ficcionado pelo assunto.

Impressionava a idéia de como a vida se persistia no Sistema Solar, mesmo com os ataques sistemáticos de Nêmesis. A grande Evasão Marciana de 1.234, as Grandes Destruições Terrenas, a Grande Mancha Vermelha de Júpiter, tudo era tão diferente do que conhecia. Lembrava das histórias do avô, que dirigia uma plataforma-tanque que, ao se chocar com um asteróide vazou 3 trilhões de litros de óleo na Terra. Por sorte a maior parte caiu no deserto, onde poucos Dinossauros se arriscavam. Ah, os Dinossauros... Tinha tanta vontade em conhecê-los. Eles eram famosos pela inteligência, por seu pacifismo e sua habilidade diplomática. Foram os Dinossauros por exemplo que negociaram a atual órbita do Haley, de forma a democratizar a distribuição de água pelos planetas do 4o. Universo.

Se ao menos houvesse alguma chance de visitar a Terra e conhecer seus ídolos... Mas como? Teria que haver uma maneira...

Adormeceu em meio a tantos pensamentos.

- Zomir, acorda! Acorda criatura! Levanta imprestável!
- Ah, o quê? Pô, Xiaut, parece até minha esposa mais nova...
- Vamos rapaz, não tá ouvindo o alarme de incêndio? Anda!

Zomir vestiu-se e seguiu Xiaut em silêncio, tenso com a situação de emergência e surpreso com a serenidade do companheiro. Xiaut, o mais velho a bordo, era Engenheiro Espaçonáutico, seu registro profissional lhe permitia contruir naves, plataformas, consertar televisão e projetar casas de até 18 andares. Dentro do projeto era responsável pela Segurança de Navegação.

Chegaram à sala de emergência e se juntaram a Thuir6. O alarme continuava.
- E pensar que eu troquei a bolsa de pesquisa em Andrômedra 9 por isso. Lá eu não fazia nada e ainda estava a menos de 10 anos-luz de casa... Choramingou Xiaut, logo após sentar-se.
- Tá querendo se aposentar já, velho? - Provocou Thuir6. Se na iniciativa privada tá puxado assim imagina só no emprego público...
- Vocês querem me explicar o que está acontecendo? - Zomir perguntou, quase que aos gritos.
- O sistema detectou um foco de incêndio e tá tentando resolver o problema. A gente tem que permanecer aqui até o sinal de que tudo está ok novamente.
- Mas onde foi esse incêndio?
- Eu sei lá, o computador que se resolva. Eu só saio daqui quando essa droga parar de apitar...

Assim que Thuir6 completou a frase o alarme foi interrompido por um anúncio do sistema:

"Mensagem 87742: sistema de propulsão precisa de reparo. Mensagem 87749: sistema de controle de incêndio precisa de reparo. Mensagem 44332: Rumo ajustado para unidade de assistência técnica S22X332B. Sistemas em modo de segurança. Todos os postos de trabalho devem ser retomados. A Kronne Engenharia agradece a preferência, tenha um bom dia".

- Cacete, agora a gente vai praquele fim de mundo! - Xiaut levou as quatro mãos à cabeça.
- Que fim de mundo? Onde fica S22X332B? - Zomir interrogava, perdido.
- Enceladus, lua de Saturno, Sistema Solar Helius - Thuir6 respondeu enquanto abria a porta da sala de emergência.
- Como é possível? Não tem uma oficina mais próxima? - Xiaut não se conformava.
- A gente acabou de passar por uma em Centauri Distante, mas eles não aceitam nosso vale-reparo nem o ticket-combustível, velho.
- Porra, ninguém é sócio do Space Club? Merda, pra quê eu fui sair de Andrômedra 9...

Zomir sentiu um frio na barriga. O destino o colocava cada vez mais próximo ao Sistema Solar Helius e os Dinossauros da Terra. Enquanto a plataforma estivesse em reparo ele poderia pegar um táxi até lá. Talvez até encontrasse alguém que tivesse conhecido seu avô.

Retornou ao seu cubículo, impaciente, e tentava retornar ao trabalho quando foi novamente interrompido:

- Zomir - gritou Thuir6 - preciso que você prepare um email pra S22X332B. Avisa a nossa situação e anexa o arquivo de log do sistema. Vou pegar um pouco do lubrificante da plataforma e você manda junto também, o Xiaut falou que a máquina tá rangendo e que o óleo deve estar baixo, a gente aproveita a parada e troca.
- Certo. É pra usar o logo da empresa? Eu vou ter que baixar de novo do site porque eu apaguei ontem por acidente...
- Porra, como você apagou um arquivo por acidente?
- É essa merda de sistema operacional! Eu tava jogando Paciência e me distraí... Fui fazer backup e ao invés de copiar eu movi o arquivo.
- Não tem como restaurar do backup então?
- Restaurar do backup?? Eu não sei fazer isso, só sei copiar para o backup...
- Tá, pode baixar então. Vou desligar o firewall, mas me avisa assim que acabar porque não quero nenhum adolescente invadindo o servidor... ainda mais nesses confins do Universo.
- Pode deixar.

Zomir via claramente agora a sua chance de conhecer os Dinossauros. Com o firewall desligado ele poderia enviar um email para a Terra também, reservando o táxi e o hotel. Como Zomir não sabia qual o protocolo era usado na Terra, ele usou um bem antigo - criou um nano-spam, um robozinho feito de hemaglutinina e neuraminidase que espalha ondas magnéticas ao redor, copiando-se ao receber uma mensagem de "ok" e se auto-destruindo ao receber uma mensagem de "páre" ou "kill".

Baixado a logo, umas fotos de mulher pelada e alguns mp13's, Zomir mandou o email para oficina e para a Terra. Chamou Thuir6 pelo rádio:

- Prontinho, pode subir o firewall.
- Beleza, fica apertando F5 aí até chegar a confirmação dos caras.

Agora era esperar pela resposta. Já podia se imaginar na Terra... Praia, lava vulcânica, broto de bambú...

Algum espaço-tempo depois, a mensagem de Zomir -- que tinha como subject "H5N1" (Hospedagem de 5 Noites para 1) -- rompe a atmosfera e chega à Terra do século XXI. Caiu no sudeste asiático, bem em cima de um grão de milho. A estrutura molecular não fornecia nenhuma resposta compreensível e o nano-spam resolveu então continuar emitindo suas mensagens. Até que, no pulmão de uma galinha, finalmente, os íons de carbono e oxigênio deram o sinal de "ok" e o email começou a se propagar.

Zomir não sabia, mas ele foi responsável por uma das pragas mais devastadoras da história da Terra, ficando atrás apenas da Gripe Espanhola - que surgiu quando um outro pesquisador desastrado recebeu um vírus através de um email que prometia fotos da Greta Garbo. Mas isso é outra história...





Fracasso dá lucro

A Oi comprou o dial da Rádio Cidade do Rio (102.9 FM) para lançar a Oi FM - uma rádio medíocre de música chata e com a programação mais irritante dos últimos tempos.
Muita gente anda se perguntando qual seria o motivo de se comprar uma rádio com um grande conjunto de ouvintes fiéis de determinado estilo (musical e de programação) e colocar no seu lugar algo completamente diferente, acabando assim com a audiência e tendo que compor uma nova. Afinal, se era pra formar uma audiência diferente, não seria o caso de comprar outra rádio de menor expressão, ou quem sabe um dial FM disponível?

A resposta é muito simples, meus caros, mas só quem fez MBA e tem alguma experiência consegue visualizar.

Foi-se o tempo em que vender um produto com uma margem razoável, agradar o consumidor e desenvolver os funcionários era a estratégia para que as empresas ganhassem dinheiro. Hoje -- aliás, já faz algum tempo -- o segredo é criar um grande 'case' de fracasso, prejuízo, escândalo, etc. e ganhar dinheiro vendendo livros e fazendo palestras sobre o assunto. Vide Enron, MCI, a bolha da Internet, o Tablet PC, etc.

É uma enorme vantagem tributária para empresas também ter um investimento que traga prejuízo. Caso contrário, que empresa iria patrocinar qualquer clube de futebol brasileiro?

Portanto, ao se deparar com uma empresa que presta um serviço horrível, que está se lixando para seus clientes e funcionários, ou que enfia goela abaixo um produto que não faz o menor sentido, prepare-se: anote numa agenda e lembre de nunca comprar qualquer livro sobre o 'case'.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2006



Responsum Quae Sera Tamen

(Responsabilidade ainda que tardia)

Vários muçulmanos exigem a retratação do governo dos países em que jornais publicaram charges de um homem barbudo de turbante, o qual foi imediatamente associado a Maomé -- não poderia ser o Bin Laden ou qualquer outro? Enfim, o fato é que o governo não pode/deve se desculpar pelo conteúdo editorial de um jornal. E o jornal não quer se desculpar por fazer uso da liberdade de expressão.

Imagina o governo brasileiro pedindo desculpas toda vez que a Veja publicar uma asneira?

Pois bem, o body count já está em 7 no Afeganistão. Sete muçulmanos morreram em protesto contra as charges -- a maioria deles nunca as viu, pois nem têm acesso a jornais ou televisão, ficaram sabendo pelo vizinho do cunhado da tia do Muhamed, e resolveram morrer por tão boa causa.

Uma das charges mostrava Maomé gritando lá de cima: "Chega! Chega! Acabaram-se as virgens!!". Mal sabia o autor que havia criado uma profecia auto-realizável prestes a explodir -- literalmente. Nunca um cartunista fez tanto sucesso, ao ponto de desbancar o W.C. Bush do noticiário!! O Dahmer do Malvados deve estar possesso, como ninguém pensou nisso antes? No Ziniguistão tudo seria mais fácil...

É difícil compreender pessoas diferentes. Para alguém nascido no Brasil, por exemplo, fica difícil imaginar um paraíso com 40 virgens. O paraíso de um brasileiro teria mais ou menos 3 cariocas, 2 gaúchas, 2 baianas, 1 paulista, 1 mineira e 1 sueca. Nenhuma delas virgens, ao contrário, 10 profissionais da área.

Essa falta de compreensão ajuda a incendiar a coisa. As relações comerciais entre Dinamarca e Irã foram suspensas. O único artigo dinamarquês que tem vendido bem por lá são as bandeiras (aliás, dica pra quem quer abrir um negócio próprio: vender bandeiras de países ocidentais no Oriente-médio -- a cada 3 bandeiras a caixa de fósforo é grátis!). Já ilustrava o amigo André, esse povo tem a mesma disposição para seguir protestos-e-queimações-públicas-de-bandeiras -de-países-judaico-cristãos-ocidentais que os baianos têm para trios-elétricos.

A burguesia dinamarquesa precisa rebolar agora pra conseguir um caviar ou tapete iraniano. Já estes em contrapartida precisam recorrer ao mercado negro para comprar bacalhau dinamarquês ou um livro infantil do Hans Christian Andersen.

E a retaliação não pára por aí. Um aluno turco atirou contra seu professor -- que era padre -- e garante que não foi por causa da reprovação em matemática. Vários bandidos no Egito estão assaltando turistas em nome da vingança contra os cartoons. Um cofre de banco foi arrombado e esvaziado na Jordânia em protesto.

A mais nova retaliação é o concurso de charges sobre o Holocausto que o jornal iraniano Hamshahri está promovendo. O desenhista que fizer a melhor representação gráfica deste "mito" leva pra casa uma lata de gás sarin.

O fato é que, apesar dos Talibãs, o mundo seguiu adiante. Seguiu para o caminho da liberdade de expressão e liberdade religiosa. De vez em quando um irlandês-católico atira uma pedra num irlandês-protestante, mas geralmente os dois guardam as pedras pra atirar num inglês-viado. E tá tudo bem. O problema é que nesse momento as liberdades estão em choque direto. E já dizia Sartre, a liberdade é o limite ao qual o homem está condenado. Confesso que só agora entendi.

Um jornalista está condenado a defender sua liberdade de expressão. O jornal está condenado a lutar pela liberdade de imprensa. O governo não pode dar pitaco nem sobre o jornalista nem sobre o jornal e está condenado à liberdade de ações de sua autonomia. Os muçulmanos estão condenados a lutar pela sua liberdade religiosa e pelo teor de sua religião -- que condena profundamente sátiras contra seus profetas. É o que se chama uma sinuca de bico, a liberdade das bolas vermelhas contra a liberdade das bolas azuis, e você só tem uma tacada pra dar.

Como resolver um impasse desses? Uns vão dizer que o melhor a se fazer é evitar se chegar a um impasse desses.

Não se pode esquecer a relação entre liberdade, limite e responsabilidade. Uma pessoa livre tem responsabilidade sobre seus atos. Além disso, somos responsáveis por zelar pelas nossas liberdades -- tanto as individuais quanto as coletivas. Queimar a bandeira de alguém ou zoar o profeta de outrém são exemplos de liberdade de expressão -- e de irresponsabilidade de ação.
Abusar da liberdade é agir contra ela. Lembra quando você combinava com seus pais de chegar em casa antes das 23h e quando dava 1h da manhã você entrava na ponta dos pés, de mansinho, pra não acordar ninguém? E quando era pego(a) passava um mês de castigo, sem poder sair. Tudo que você queria era ser independente pra não ter que dar satisfação a ninguém. Você cresceu e agora tem que dar satisfação pro chefe, pro gerente do banco, pro SPC, pra polícia, pra bandido, até pra pedinte no sinal.

A liberdade é uma conquista que herdamos daqueles que lutaram por ela. É muito fácil esquecer o valor daquilo pelo qual não precisamos lutar. Ivan Lessa escreveu no ano retrasado sobre a "mania americana de liberdade" -- para a qual têm duas palavras até, "freedom" e "liberty" -- e lembra que, se o preço da liberdade é a eterna vigilância, ela custa muito, muito caro. Dinheiro que, claro, sai do bolso do contribuinte. Portanto, não a arrisque a toa.


Ode a uma cidade-cadente
O Rio de Janeiro é uma cidade decadente. Não, não é obra pura e simples da política decadente. Nossos governantes refletem a qualidade da nossa política e a nossa capacidade em elegê-los. Não é por conta da nossa indústria decadente, tampouco, que é mais uma conseqüência do que uma causa. Nem seria tal causa a decadência do nosso ensino e educação, que sofre por falta de verbas. Ainda.
A noite carioca é decadente, desde os melhores botecos (sendo vendidos a paulistas) até as piores boates, restringida pela violência. Nossos parques, praças e jardins são decadentes, abandonados, vazios. A música carioca é decadente, temos que ouvir (sem reclamar!) os sotaques paulistas e mineiros nas rádios.
Nosso futebol é decadente. Mas esse assunto é melhor nem começar... Por causa deste futebol decadente o U2 não vai nem passar por aqui...
Até nossos criminosos são decadentes. Que saudade dos bons tempos, das fugas cinematográficas de helicópteros. Dos assaltos charmosos, dos roubos de taças do mundo.
O Rio é uma cidade decadente. Foi uma estrela primorosa, da bossa, do samba, do cinema, dos cassinos. Uma estrela cadente que chega à beira do horizonte, difícil até de ser enxergada. E não adianta se vestir de branco e andar no calçadão, faixa na mão, pedindo sabe-lá-o-que mais.

Adeus grandes empresas, adeus orçamento da União.
Adeus empregos, refinaria, adeus parques-de-diversão.
Adeus lazer, adeus esportes, adeus segurança.
A gente se vê em São Paulo, BH, Curitiba.
Adeus consulados, museus, adeus esperança.
Adeus qualidade de vida, passeios na Sernambetiba.
Adeus Arpoador, paineiras, Vista Chinesa.
A gente se vê em Brasília, POA, Fortaleza.

Bem vindo o Pan. Que traga esperança.

Coluna social
Hoje (dia 08.02) é meu aniversário! Mande os parabéns, que ainda é de graça.
Quem quiser e puder, chopp Rota 66 na Cobal do Humaitá. A partir das 19:30. Seguido de show da Danny Carvalho.
EDITADO em 09.02: Galera, valeu mesmo pela presença, e ainda mais pela surpresa. Danny parabéns pelo show, aturar uma mesa de bêbados e bêbadas bem do lado não deve ter sido fácil. Espero que a ressaca esteja valendo a pena pra vocês também.